Tratamento da sarcopenia
Sarcopenia não é apenas perda de massa muscular. Ela pode comprometer força, equilíbrio, mobilidade e, principalmente, a autonomia ao longo dos anos.
PREVENÇÃO


Tratamento da sarcopenia: recuperar força, função e autonomia vai muito além de ganhar massa muscular
Por Dr. Gionei Sulzbacher — CRM-PR 29.795
Quando falamos em sarcopenia, é comum pensar imediatamente em perda de massa muscular.
Mas o problema é mais amplo.
A sarcopenia é uma doença muscular caracterizada principalmente pela redução da força, podendo estar associada à diminuição da quantidade ou da qualidade muscular e, nos casos mais avançados, à piora do desempenho físico.
Isso significa que o objetivo do tratamento não deve ser simplesmente “ganhar músculos”.
O que realmente importa é preservar ou recuperar aquilo que permite ao paciente continuar vivendo com independência:
força, mobilidade, estabilidade e autonomia.
É por isso que o tratamento da sarcopenia não pode ser resumido a whey protein, creatina, vitaminas ou qualquer outro suplemento isolado.
A base é outra:
treinamento resistido + alimentação adequada + investigação e correção das causas que contribuem para a perda muscular.
Os suplementos, quando indicados, entram como ferramentas complementares dentro de uma estratégia individualizada.
O que realmente queremos tratar na sarcopenia?
O músculo não serve apenas para modificar a aparência corporal.
Ele participa diretamente de atividades fundamentais da vida diária.
Levantar de uma cadeira.
Subir escadas.
Carregar compras.
Caminhar com segurança.
Reagir rapidamente a um desequilíbrio.
Evitar uma queda.
Manter independência para realizar tarefas comuns.
Por isso, um tratamento bem estruturado busca:
aumentar ou preservar força e potência muscular;
melhorar a capacidade de caminhar e se movimentar;
recuperar ou preservar massa muscular quando possível;
reduzir o risco de quedas;
combater fragilidade e imobilização;
preservar independência funcional;
identificar doenças ou condições que estejam contribuindo para o problema.
A pergunta mais importante ao longo do tratamento não é apenas:
“O paciente ganhou músculo?”
Mas principalmente:
“Ele está mais forte, mais rápido, mais estável e mais independente?”
Antes de pensar em suplementos, é preciso entender o paciente
Sarcopenia não deve ser avaliada apenas pela aparência física ou pelo número apresentado na balança.
A investigação pode envolver diferentes dimensões.
Força muscular
Pode ser avaliada, por exemplo, pela dinamometria de preensão das mãos ou por testes funcionais como levantar repetidamente de uma cadeira.
Desempenho físico
Velocidade da marcha, capacidade de levantar e caminhar, equilíbrio e outros testes ajudam a entender como a musculatura está funcionando na prática.
Quantidade muscular
Dependendo do caso e da disponibilidade, exames como DXA ou bioimpedância podem contribuir para a avaliação da composição corporal.
Estado nutricional
Também é importante analisar:
perda recente de peso;
quantidade de proteínas consumidas;
ingestão energética;
apetite;
dificuldades de mastigação ou deglutição;
risco de desnutrição.
E existe outro ponto fundamental.
Por que esse paciente está perdendo força e músculo?
A sarcopenia pode coexistir com diversos fatores que precisam ser investigados.
Entre eles estão:
inatividade física, doenças inflamatórias, câncer, insuficiência cardíaca, renal ou hepática, alterações endócrinas, deficiência de vitamina D, anemia, deficiências nutricionais, determinados medicamentos e outras condições capazes de favorecer catabolismo ou dificultar a resposta muscular.
Tratar apenas o músculo sem procurar a causa pode significar tratar apenas uma parte do problema.
Primeiro pilar: treinamento resistido
Entre as estratégias utilizadas no tratamento da sarcopenia, o exercício físico — especialmente o treinamento resistido — ocupa posição central.
O músculo precisa receber estímulo.
Sem estímulo mecânico adequado, simplesmente oferecer mais nutrientes ou suplementos tende a produzir uma resposta menor.
De maneira geral, o treinamento pode incluir sessões de exercícios resistidos algumas vezes por semana, sempre adaptadas à condição clínica e funcional de cada pessoa.
A progressão também é importante.
À medida que o paciente melhora, carga, volume e complexidade podem ser ajustados.
Em determinados pacientes, também pode ser interessante trabalhar:
potência muscular, importante para ações rápidas como levantar-se ou reagir a um desequilíbrio;
equilíbrio e marcha, especialmente quando existe histórico de quedas ou instabilidade;
condicionamento aeróbico, relevante para saúde cardiovascular e metabólica.
O exercício aeróbico é importante, mas não substitui o estímulo resistido quando o objetivo é combater perda de força e função muscular.
Em pacientes frágeis, a estratégia deve ser ainda mais individualizada, começando abaixo da capacidade máxima e evoluindo progressivamente.
Segundo pilar: proteína e energia adequadas
Existe uma relação simples que ajuda a entender o tratamento:
o exercício é o estímulo; a proteína é o substrato.
As duas estratégias trabalham melhor quando estão integradas.
Em muitos pacientes com sarcopenia, podem ser utilizadas metas proteicas em torno de 1,2 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso corporal ao dia, mas esse valor precisa ser individualizado.
Idade, peso, estado nutricional, doenças existentes, função renal, ingestão energética e tolerância precisam ser considerados.
Outro ponto importante é a distribuição da proteína.
Em vez de concentrar praticamente toda a ingestão proteica em uma única refeição, pode ser interessante distribuí-la entre as principais refeições do dia.
Também precisamos garantir energia suficiente.
Uma restrição calórica excessiva pode dificultar a recuperação muscular.
Isso merece atenção especial em pacientes que desejam emagrecer.
Emagrecer sem proteger o músculo pode ser um problema
A balança mostra peso.
Ela não mostra, sozinha, de onde esse peso foi perdido.
Durante um processo de emagrecimento, parte da redução pode ocorrer às custas de massa magra.
Por isso, particularmente em pessoas mais velhas ou com risco de sarcopenia, a estratégia de emagrecimento precisa considerar preservação muscular.
Perder peso não deveria significar perder força.
Proteína adequada e treinamento resistido tornam-se fundamentais nesse contexto.
Whey protein: ferramenta, não tratamento
Whey protein pode ser uma forma prática de ajudar determinados pacientes a atingir sua meta diária de proteínas.
Mas não é obrigatório.
Se a alimentação habitual já fornece a quantidade e a qualidade de proteína necessárias, o suplemento pode não ser necessário.
Quando utilizado, uma faixa frequentemente empregada é de aproximadamente 20 a 30 gramas por tomada, sempre considerando o tamanho corporal, o restante da alimentação e a meta diária.
O mais importante não é procurar um suposto horário perfeito.
A ingestão total de proteínas, sua distribuição e principalmente a adesão à estratégia são mais relevantes.
Creatina pode ter espaço no tratamento?
Sim.
A creatina monohidratada é um dos adjuvantes nutricionais mais estudados quando associada ao treinamento resistido, inclusive em adultos mais velhos.
Existe evidência favorável principalmente em relação à força, desempenho e massa magra.
Uma estratégia prática frequentemente utilizada envolve aproximadamente 3 a 5 gramas por dia.
A chamada fase de saturação não é obrigatória para o uso clínico rotineiro.
Também é importante explicar que um eventual aumento inicial do peso corporal após o início da creatina pode estar relacionado ao aumento da água intracelular e não necessariamente ao ganho de gordura.
Como qualquer intervenção, a indicação deve considerar o contexto individual, especialmente em pessoas com doença renal ou outras condições clínicas relevantes.
HMB: para quem pode fazer sentido?
O HMB — β-hidroxi-β-metilbutirato — é um metabólito relacionado à leucina e tem sido estudado pelo seu possível efeito anticatabólico e anabólico.
Ele pode ser considerado em situações específicas, principalmente quando existe maior risco de perda muscular.
Entre os possíveis cenários estão:
fragilidade;
baixa ingestão alimentar;
risco nutricional;
períodos de imobilização;
recuperação após doença;
hospitalização;
condições associadas a maior catabolismo.
Uma dose de aproximadamente 3 gramas ao dia aparece com frequência nos estudos.
Mas existe uma regra importante:
HMB não substitui exercício, proteína adequada ou outras medidas fundamentais.
É um recurso complementar, indicado de acordo com o perfil do paciente.
E a leucina?
A leucina participa da sinalização relacionada à síntese de proteínas musculares.
Mas existe uma diferença importante entre ativar uma sinalização molecular e efetivamente construir tecido muscular.
Sem quantidade suficiente dos demais aminoácidos, apenas aumentar a leucina não resolve o problema.
Por isso, quando o paciente já recebe uma alimentação rica em proteínas de boa qualidade ou utiliza whey de maneira adequada, adicionar leucina isoladamente pode oferecer benefício adicional limitado.
Em alguns casos, aminoácidos essenciais podem ser considerados quando existe dificuldade para atingir uma ingestão proteica adequada através da alimentação.
Vitamina D e outros micronutrientes
A vitamina D merece atenção principalmente quando existe deficiência ou insuficiência.
Mas ela não deve ser entendida como um tratamento anabólico específico para sarcopenia.
O objetivo deve ser identificar e corrigir deficiências quando presentes — e não utilizar megadoses indiscriminadamente com a expectativa de promover hipertrofia.
O mesmo raciocínio vale para outros nutrientes.
Deficiências de ferro, vitamina B12, folato e outros micronutrientes devem ser investigadas e tratadas quando identificadas.
Corrigir uma deficiência é diferente de suplementar sem indicação.
Ômega-3
O ômega-3 possui diferentes indicações dentro da medicina, principalmente relacionadas a determinados objetivos cardiometabólicos.
Também existem estudos investigando sua relação com a musculatura.
Entretanto, no tratamento da sarcopenia, ele não ocupa atualmente o mesmo nível de prioridade de estratégias como:
treinamento resistido, alimentação adequada e, quando indicada, creatina.
Sua utilização deve seguir a indicação clínica individual.
E os novos suplementos para ganho muscular?
Novos compostos e peptídeos vêm surgindo no mercado com promessas relacionadas à síntese proteica, recuperação e hipertrofia.
Um exemplo são os peptídeos derivados da Vicia faba, comercialmente associados ao PeptiStrong.
Existem estudos iniciais em humanos e plausibilidade biológica.
Entretanto, ainda faltam estudos robustos especificamente em idosos com sarcopenia, fragilidade e desfechos funcionais.
Por isso, atualmente, esse tipo de recurso deve ser considerado emergente e opcional.
Não existe evidência clínica suficiente para afirmar que ele seja “quatro vezes melhor que whey”, por exemplo, para tratar sarcopenia.
Também não existe justificativa para substituir estratégias já estabelecidas, como proteína adequada e creatina, apenas com base em marketing ou sinalização molecular.
Na prática clínica, novidades podem ser avaliadas.
Mas a base precisa estar organizada primeiro.
Uma hierarquia prática para o tratamento da sarcopenia
Podemos pensar na estratégia em uma sequência de prioridades.
1. Treinamento resistido
É a base terapêutica.
2. Proteína e energia adequadas
Fornecem os substratos necessários para manutenção e recuperação muscular.
3. Whey protein, quando necessário
É uma ferramenta para ajudar a atingir a meta proteica.
4. Creatina monohidratada
Pode potencializar adaptações quando bem indicada.
5. HMB
Pode ser considerado em determinados fenótipos, principalmente nos estados de maior risco catabólico.
6. Aminoácidos essenciais ou leucina
Utilização situacional, conforme alimentação e necessidades individuais.
7. Vitamina D e micronutrientes
Corrigir deficiências identificadas.
8. Novos peptídeos e compostos emergentes
Podem ser avaliados como adjuvantes, sem substituir aquilo que já possui melhor sustentação científica.
Como saber se o tratamento está funcionando?
O tratamento precisa ser acompanhado.
Dependendo do caso, após aproximadamente 8 a 12 semanas de uma intervenção estruturada, podemos reavaliar diferentes indicadores.
Entre eles:
força de preensão;
capacidade de levantar da cadeira;
velocidade da marcha;
equilíbrio;
composição corporal;
progressão das cargas durante o exercício;
peso e trajetória de perda ou ganho ponderal;
consumo de proteínas;
ocorrência de quedas;
fadiga;
nível de atividade física;
capacidade para realizar atividades da vida diária.
O número apresentado pela balança ou por um exame de composição corporal não deve ser analisado isoladamente.
A avaliação precisa retornar à pergunta central:
o paciente está mais forte, mais rápido, mais estável e mais independente?
Porque ganhar massa sem recuperar função não é o objetivo final do tratamento.
Sarcopenia exige tratamento individualizado
Não existe uma prescrição única que funcione para todos.
Pacientes com doença renal crônica, por exemplo, precisam de avaliação específica antes de aumentar a ingestão proteica ou utilizar determinados suplementos.
Pessoas com insuficiência cardíaca ou hepática, câncer, doenças inflamatórias ou em recuperação após hospitalização também apresentam necessidades particulares.
Na obesidade sarcopênica, é preciso evitar estratégias de emagrecimento rápido que comprometam ainda mais a massa muscular.
Pacientes com disfagia, perda de apetite, alterações cognitivas ou dependência funcional podem precisar de adaptações na alimentação e na própria logística das refeições.
E quando existe risco aumentado de quedas, o tratamento pode envolver não apenas força muscular, mas também equilíbrio, avaliação dos medicamentos, visão, ambiente domiciliar e saúde óssea.
O que não devemos fazer no tratamento da sarcopenia
Alguns erros precisam ser evitados.
Não tratar sarcopenia exclusivamente com whey, creatina, HMB ou qualquer suplemento.
Não olhar apenas para massa muscular e ignorar força e funcionalidade.
Não prescrever dietas hiperproteicas automaticamente para todos os pacientes, especialmente na presença de doença renal.
Não utilizar megadoses de vitamina D buscando efeito anabólico.
Não trocar estratégias bem estabelecidas por suplementos novos apenas devido a promessas de marketing.
E, principalmente, não deixar de investigar por que aquele paciente está perdendo força ou massa muscular.
Perda de peso inexplicada, inflamação, doenças sistêmicas, alterações hormonais, deficiências nutricionais e determinados medicamentos podem fazer parte do problema.
Em resumo: o verdadeiro objetivo é preservar autonomia
Uma maneira simples de compreender a estratégia é:
TREINAMENTO = ESTÍMULO
PROTEÍNA = SUBSTRATO
CREATINA = POTENCIALIZAÇÃO DA ADAPTAÇÃO
HMB = ADJUVANTE PARA SITUAÇÕES SELECIONADAS
CORREÇÃO DE DEFICIÊNCIAS = REMOVER LIMITADORES
NOVOS SUPLEMENTOS = RECURSOS OPCIONAIS, ENQUANTO A EVIDÊNCIA EVOLUI
E, acima de tudo:
DESFECHO FINAL = FORÇA + FUNÇÃO + AUTONOMIA
Envelhecer bem não significa simplesmente manter um determinado número na balança.
Significa continuar tendo capacidade para levantar, caminhar, reagir, carregar, subir, movimentar-se e realizar suas próprias atividades.
Por isso, quando falamos em sarcopenia, estamos falando também de longevidade funcional.
Preservar músculo importa.
Mas preservar aquilo que esse músculo permite que você continue fazendo é ainda mais importante.
Dr. Gionei Sulzbacher
CRM-PR 29.795
Este conteúdo possui caráter educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou acompanhamento médico individualizado. Estratégias nutricionais, suplementação e exercícios devem ser definidos considerando idade, condições clínicas, função renal e hepática, medicamentos, capacidade funcional e objetivos de cada paciente.
Referências essenciais
Dent E, et al. International Clinical Practice Guidelines for Sarcopenia (ICFSR): Screening, Diagnosis and Management. J Nutr Health Aging. 2018.
Cruz-Jentoft AJ, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis (EWGSOP2). Age Ageing. 2019.
Kuzuya M, et al. Nutritional Management Guidelines for Sarcopenia and Frailty 2025. Geriatr Gerontol Int. 2025.
Zhao et al. Exercise and nutrition strategies for sarcopenia in older adults: evidence from a network meta-analysis based on EWGSOP and AWGS criteria. 2025.

