Osteoporose Prevenção Fraturas

A osteoporose pode evoluir silenciosamente por anos. Entenda os fatores de risco, a importância da densitometria, como prevenir fraturas e por que preservar músculos, equilíbrio e autonomia faz parte do tratamento.

PREVENÇÃO

Dr. Gionei Sulzbacher

9/8/20268 min read

Osteoporose: o osso não avisa — até que a primeira fratura aconteça

A osteoporose costuma evoluir de maneira silenciosa.

Nas fases iniciais, geralmente não provoca dor, não altera a aparência e pode permanecer sem sinais perceptíveis durante anos. Em muitos casos, a doença só é descoberta depois de uma fratura provocada por uma queda da própria altura — ou até mesmo por um esforço aparentemente pequeno.

Por isso, esperar a primeira fratura para investigar a saúde óssea pode significar chegar tarde.

A osteoporose não deve ser entendida simplesmente como “falta de cálcio” ou apenas como uma alteração encontrada na densitometria óssea.

Trata-se de uma condição caracterizada pela redução da resistência do osso, aumentando o risco de fraturas, principalmente na coluna, quadril, punho e úmero.

Na prática, existe uma pergunta ainda mais importante do que apenas saber se uma pessoa tem ou não osteoporose:

Qual é o risco real de essa pessoa sofrer uma fratura nos próximos anos — ou até nos próximos meses?

Por que uma fratura por osteoporose merece tanta atenção?

Uma fratura por fragilidade é aquela que ocorre após um trauma de baixa intensidade, como uma queda da própria altura.

Ela não deve ser encarada apenas como um acidente.

Principalmente em pessoas mais velhas, uma fratura pode desencadear uma sequência de acontecimentos capazes de comprometer progressivamente a saúde e a autonomia:

  • dor e limitação dos movimentos;

  • perda de massa e força muscular;

  • medo de cair novamente;

  • redução das atividades físicas e sociais;

  • maior dependência para tarefas do dia a dia;

  • hospitalizações e outras complicações;

  • perda de autonomia e qualidade de vida.

A fratura de quadril merece atenção especial pela sua gravidade e pelo impacto que pode provocar sobre a mobilidade e a independência.

Já as fraturas vertebrais podem passar despercebidas. Algumas pessoas apresentam apenas dor nas costas, redução da altura, postura progressivamente curvada ou piora da mobilidade.

Existe ainda outro ponto importante: quem já sofreu uma fratura por fragilidade apresenta maior probabilidade de sofrer uma nova fratura.

Esse risco pode ser especialmente elevado nos primeiros meses e anos após o primeiro evento.

Esse período é conhecido como risco iminente de fratura e exige avaliação médica rápida.

Quem apresenta maior risco de osteoporose?

A osteoporose é mais frequente após a menopausa e com o avanço da idade, mas também pode atingir homens e mulheres em diferentes fases da vida.

Entre os principais fatores relacionados ao aumento do risco estão:

  • menopausa e idade avançada;

  • fratura por fragilidade anterior;

  • histórico familiar de fratura do quadril;

  • baixo peso ou perda importante de peso;

  • tabagismo;

  • consumo excessivo de álcool;

  • sedentarismo;

  • deficiência de vitamina D;

  • alimentação insuficiente em cálcio e proteínas;

  • quedas recorrentes;

  • sarcopenia e fragilidade;

  • uso prolongado de corticoides;

  • artrite reumatoide;

  • doenças renais, intestinais, endócrinas ou hematológicas;

  • utilização de determinados medicamentos que afetam a saúde óssea ou aumentam o risco de quedas.

Nenhum desses fatores deve ser interpretado isoladamente.

O risco final resulta da combinação entre diversos elementos, como qualidade óssea, densidade mineral, idade, histórico de fraturas, doenças associadas, força muscular, equilíbrio e probabilidade de cair.

Densitometria óssea é importante, mas não conta toda a história

A densitometria óssea, também conhecida como DXA, é um dos principais exames utilizados para avaliar a densidade mineral dos ossos.

Um dos resultados apresentados pelo exame é o chamado T-score.

De maneira geral:

  • T-score igual ou superior a −1,0: densidade considerada normal;

  • T-score entre −1,0 e −2,5: baixa massa óssea ou osteopenia;

  • T-score igual ou inferior a −2,5: critério densitométrico para osteoporose.

Porém, existe uma informação fundamental:

uma pessoa pode sofrer uma fratura por fragilidade mesmo sem apresentar T-score abaixo de −2,5.

Isso significa que a decisão sobre prevenção e tratamento não deve depender exclusivamente de um número apresentado na densitometria.

A avaliação pode considerar, entre outros fatores:

  • histórico clínico;

  • densitometria óssea;

  • exames laboratoriais;

  • investigação de possíveis fraturas vertebrais;

  • fatores relacionados a quedas e fragilidade;

  • ferramentas de cálculo de risco, como o FRAX Brasil 2.0.

O FRAX auxilia na estimativa da probabilidade de ocorrência de determinadas fraturas osteoporóticas e de quadril.

Uma regra prática é importante

Quando o risco de fratura já está claramente elevado — como pode acontecer após determinadas fraturas por fragilidade — não se deve necessariamente atrasar a proteção do paciente esperando que outro exame volte a demonstrar aquilo que o quadro clínico já revelou.

Nem toda osteoporose apresenta o mesmo risco

Ter osteoporose não significa que todas as pessoas apresentam a mesma probabilidade de sofrer uma fratura.

Uma pessoa sem histórico de fraturas, com densidade relativamente preservada e baixo risco clínico está em uma situação diferente daquela de um paciente com:

  • fratura vertebral recente;

  • múltiplas fraturas;

  • densidade mineral muito baixa;

  • alto risco de quedas;

  • fragilidade importante.

Por isso, o tratamento moderno da osteoporose envolve a chamada estratificação do risco de fratura.

De forma geral, os pacientes podem ser classificados em categorias como risco baixo, moderado, alto ou muito alto.

Essa classificação ajuda o médico a definir:

  • se existe indicação de tratamento medicamentoso;

  • qual classe terapêutica pode ser mais apropriada;

  • com que rapidez o tratamento deve começar;

  • quais são os objetivos da terapia;

  • como acompanhar a resposta;

  • qual deve ser a sequência dos medicamentos ao longo do tempo.

Portanto, a decisão não deve se limitar ao diagnóstico de osteoporose.

É necessário entender o risco atual, a urgência e a distância entre a condição daquele paciente e a meta terapêutica desejada.

Como a osteoporose é tratada?

O tratamento da osteoporose não envolve apenas medicamentos.

Uma estratégia completa procura proteger simultaneamente ossos, músculos, mobilidade e capacidade funcional.

Alimentação, cálcio, vitamina D e proteínas

Cálcio, vitamina D e proteínas desempenham papéis importantes na saúde musculoesquelética.

Sempre que possível, o cálcio deve ser obtido prioritariamente por meio da alimentação.

A necessidade de suplementação depende de diversos fatores, incluindo:

  • ingestão alimentar;

  • exames laboratoriais;

  • idade;

  • doenças associadas;

  • tratamento utilizado.

É importante lembrar que vitamina D em excesso também pode causar problemas.

Por isso, utilizar doses elevadas sem indicação ou acompanhamento médico não representa uma estratégia segura.

Exercício físico: proteger os músculos também é proteger os ossos

O osso necessita de estímulo mecânico.

E o músculo precisa ser preservado.

Quando adequadamente indicados, exercícios resistidos, atividades com sustentação de peso e treinamento de equilíbrio podem contribuir para:

  • manter ou aumentar a força;

  • melhorar a estabilidade;

  • reduzir o risco de quedas;

  • preservar a mobilidade;

  • favorecer a saúde óssea;

  • ajudar na manutenção da independência.

O programa de exercícios deve ser individualizado, especialmente em pessoas que já apresentam fraturas vertebrais, dor importante, fragilidade ou risco elevado de quedas.

Prevenir quedas é parte do tratamento

Existe um princípio importante no cuidado com a osteoporose:

tratar a densidade óssea sem investigar as quedas significa cuidar de apenas uma parte do problema.

Uma avaliação preventiva pode incluir aspectos como:

  • visão;

  • audição;

  • equilíbrio;

  • força muscular;

  • pressão arterial ao se levantar;

  • tipo de calçado;

  • obstáculos e riscos dentro de casa;

  • medicamentos capazes de provocar tontura, sonolência ou redução da pressão.

Quanto maior o risco de cair, maior pode ser também o risco de uma fratura.

Medicamentos para osteoporose: a escolha depende do risco

Os medicamentos utilizados no tratamento da osteoporose podem ser divididos, de maneira geral, em dois grandes grupos.

Antirreabsortivos

São medicamentos que reduzem a perda óssea.

Entre eles estão os bisfosfonatos, como:

  • alendronato;

  • risedronato;

  • ácido zoledrônico.

O denosumabe também pertence ao grupo dos tratamentos antirreabsortivos.

Osteoformadores ou anabólicos

São terapias que estimulam a formação óssea.

Entre elas estão:

  • teriparatida;

  • romosozumabe.

Em muitos pacientes com risco elevado, os bisfosfonatos podem ser opções iniciais eficazes.

O denosumabe também pode ser utilizado em situações selecionadas, mas necessita de planejamento adequado, compromisso com as aplicações e definição de uma estratégia para eventual transição do tratamento.

Em pacientes classificados como de risco muito alto, especialmente diante de fraturas recentes, múltiplas ou graves, pode ser mais apropriado iniciar com uma terapia formadora de osso e, posteriormente, utilizar um medicamento antirreabsortivo para preservar o ganho obtido.

Aqui existe um conceito fundamental:

não basta escolher um bom medicamento. Também é necessário escolher a sequência correta do tratamento.

Atenção especial ao denosumabe

O denosumabe merece uma orientação específica.

Ele não deve ser interrompido ou ter suas aplicações atrasadas sem planejamento médico.

Ao contrário de alguns bisfosfonatos, o denosumabe não permite simplesmente fazer uma “pausa terapêutica”.

Sua suspensão sem uma estratégia medicamentosa de proteção pode levar a rápida perda de densidade óssea e aumentar o risco de múltiplas fraturas vertebrais.

Por isso, antes mesmo de iniciar esse tratamento, é importante pensar na continuidade e também na eventual estratégia de transição.

Existe pausa no tratamento da osteoporose?

Em determinados pacientes que utilizaram bisfosfonatos durante vários anos e passaram a apresentar risco baixo ou moderado, pode ser considerada uma pausa cuidadosamente monitorada.

Mas isso não significa que a osteoporose desapareceu.

Pessoas que permanecem com risco elevado, novas fraturas, densidade muito baixa, uso de corticoides ou quedas recorrentes podem precisar manter ou modificar o tratamento.

A decisão deve ser individualizada.

Para medicamentos como denosumabe, teriparatida e romosozumabe, as estratégias são diferentes.

Por isso, nenhum tratamento para osteoporose deve ser interrompido por conta própria.

Osteoporose, sarcopenia e fragilidade estão conectadas

O osso não envelhece sozinho.

A saúde óssea está diretamente relacionada à capacidade muscular, ao equilíbrio, à mobilidade e à autonomia.

Quando a perda óssea ocorre associada à redução de força e massa muscular, temos uma condição conhecida como osteossarcopenia.

Nesse cenário, dois riscos podem aumentar simultaneamente:

a probabilidade de cair e a possibilidade de o osso fraturar durante a queda.

Por isso, uma avaliação preventiva ampla não deve observar somente a densidade mineral óssea.

Também pode ser necessário avaliar:

  • força muscular;

  • velocidade da marcha;

  • equilíbrio;

  • histórico de quedas;

  • capacidade de levantar-se;

  • estado nutricional;

  • autonomia para atividades do cotidiano.

O objetivo do tratamento não deve ser simplesmente melhorar o resultado de um exame.

O objetivo é preservar movimento, independência, funcionalidade e qualidade de vida.

Quando procurar avaliação médica?

A saúde óssea merece atenção especialmente em situações como:

  • mulheres após a menopausa com fatores de risco;

  • pessoas em idade avançada;

  • fratura após uma queda da própria altura;

  • perda progressiva de altura;

  • postura cada vez mais curvada;

  • dor súbita e persistente na coluna;

  • uso prolongado de corticoides;

  • quedas recorrentes;

  • baixo peso;

  • fragilidade;

  • redução de massa ou força muscular;

  • histórico familiar de fratura do quadril;

  • doenças ou tratamentos que possam interferir no metabolismo ósseo.

Toda fratura provocada por um trauma de baixa intensidade deveria gerar uma pergunta:

Será que esse osso já estava fragilizado antes da queda?

A mensagem mais importante

A osteoporose pode ser investigada, prevenida e tratada.

Mas o cuidado ideal começa antes que a primeira fratura transforme a rotina e a autonomia do paciente.

Mais do que observar apenas a densitometria óssea, é necessário compreender o risco de fratura, identificar sinais de fragilidade, preservar os músculos, reduzir o risco de quedas e escolher um tratamento que possa ser realizado com segurança ao longo do tempo.

Na osteoporose, o diagnóstico é apenas o início da decisão.

O risco de fratura, a reserva funcional e a capacidade de completar corretamente a sequência terapêutica ajudam a definir o melhor caminho para cada paciente.

Não devemos avaliar apenas a doença.

Precisamos avaliar a pessoa, sua capacidade funcional e também as consequências de tratar — ou de não tratar.

Dr. Gionei Sulzbacher
CRM-PR 29.795
Medicina Preventiva • Longevidade

www.drgioneisulzbacher.com.br

Este conteúdo possui finalidade educativa e informativa e não substitui uma avaliação médica individualizada.

Fontes científicas citadas no material-base

  • Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo — FRAX Brasil 2.0

  • International Osteoporosis Foundation

  • Endocrine Society — manejo farmacológico da osteoporose pós-menopausa