Lipoproteína(a): o risco cardiovascular que o colesterol comum pode não mostrar
A lipoproteína(a), ou Lp(a), é um fator de risco cardiovascular fortemente influenciado pela genética e que pode permanecer elevado mesmo com colesterol e LDL aparentemente controlados. Entenda quando medir, como interpretar o resultado e por que esse marcador pode mudar a avaliação do risco cardiovascular.


Lipoproteína(a): o risco cardiovascular que o colesterol comum pode não mostrar
Você pode ter colesterol total dentro da normalidade, LDL aparentemente controlado e bons hábitos de vida — e, ainda assim, carregar um fator adicional de risco cardiovascular que talvez nunca tenha sido medido.
Ele se chama lipoproteína(a), ou Lp(a).
Diferentemente de vários fatores de risco cardiovascular relacionados ao estilo de vida, a concentração da Lp(a) é determinada predominantemente pela genética.
Isso significa que uma pessoa pode se alimentar bem, praticar exercícios regularmente, não fumar, controlar o peso e, mesmo assim, apresentar níveis elevados.
E existe um detalhe particularmente importante:
muitas pessoas passam a vida inteira sem saber quanto têm de Lp(a).
Por isso, compreender esse marcador pode acrescentar uma informação importante à prevenção cardiovascular.
O que é a lipoproteína(a)?
A lipoproteína(a) é uma partícula semelhante ao LDL — popularmente conhecido como “colesterol ruim” —, mas apresenta uma característica adicional: está ligada a uma proteína chamada apolipoproteína(a).
Essa estrutura confere à Lp(a) propriedades relacionadas ao desenvolvimento da aterosclerose e ao aumento do risco cardiovascular.
Concentrações elevadas estão associadas a maior risco de doença arterial coronariana, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico, doença arterial periférica e também à estenose calcífica da válvula aórtica.
Atualmente, as evidências epidemiológicas e genéticas sustentam a Lp(a) como um fator causal e independente de risco para doença cardiovascular aterosclerótica.
E não estamos falando de uma alteração rara.
Estima-se que aproximadamente 1 em cada 5 pessoas apresente níveis elevados de Lp(a).
Por que quase ninguém fala sobre ela?
Porque a Lp(a) não faz parte necessariamente do lipidograma tradicional.
Normalmente, quando avaliamos o colesterol, encontramos exames como colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos.
Eles são extremamente importantes, mas podem não revelar toda a história.
Uma pessoa pode apresentar um LDL aparentemente adequado e, ainda assim, possuir uma concentração elevada de Lp(a), adicionando um componente genético ao seu risco cardiovascular.
É justamente por isso que as recomendações internacionais passaram a dar cada vez mais importância à sua dosagem.
A atualização de 2024 da National Lipid Association (NLA) recomenda que a Lp(a) seja medida pelo menos uma vez em todos os adultos.
A atualização das diretrizes europeias ESC/EAS de 2025 também recomenda considerar sua medição pelo menos uma vez ao longo da vida adulta.
Para muitas pessoas, portanto, estamos falando de um exame que talvez precise ser realizado apenas uma vez para revelar uma informação cardiovascular relevante para toda a vida.
Qual valor de Lp(a) é considerado elevado?
Aqui existe um ponto importante.
A interpretação da Lp(a) precisa considerar o método utilizado pelo laboratório e a unidade na qual o resultado é apresentado.
A National Lipid Association utiliza, de maneira prática, a seguinte classificação:
Menor risco relacionado à Lp(a): abaixo de 30 mg/dL ou abaixo de 75 nmol/L.
Faixa intermediária: entre 30 e 50 mg/dL ou entre 75 e 125 nmol/L.
Risco elevado: a partir de 50 mg/dL ou 125 nmol/L.
As diretrizes europeias de 2025 também consideram concentrações acima de aproximadamente 50 mg/dL clinicamente relevantes como modificadoras do risco cardiovascular.
Existe, porém, uma informação fundamental:
o risco não começa magicamente em determinado número.
A relação entre Lp(a) e risco cardiovascular ocorre de forma contínua.
De maneira geral, quanto maior a concentração da Lp(a), maior tende a ser o risco associado.
Além disso, mg/dL e nmol/L representam formas diferentes de medir a Lp(a), e não existe uma conversão universal exata entre essas unidades. Por isso, o resultado deve ser interpretado no contexto do método utilizado pelo laboratório e do risco clínico de cada paciente.
Se a Lp(a) é genética, alimentação e exercício conseguem diminuí-la?
Em geral, muito pouco.
Essa é uma das principais diferenças entre a Lp(a) e vários outros componentes do risco metabólico.
Perda de peso, alimentação adequada, exercício físico regular, controle da pressão arterial, abandono do tabagismo e melhora da saúde metabólica continuam sendo fundamentais para a prevenção cardiovascular.
Entretanto, essas intervenções costumam produzir alterações relativamente pequenas na concentração da Lp(a).
Isso não significa que o estilo de vida perdeu importância.
Na verdade, significa exatamente o contrário.
Se existe um fator genético que não conseguimos modificar facilmente, torna-se ainda mais importante controlar de maneira adequada todos os fatores que podemos modificar.
Minha Lp(a) está alta. E agora?
Encontrar uma Lp(a) elevada não significa que a pessoa inevitavelmente terá um infarto ou um AVC.
O exame acrescenta uma nova informação à avaliação.
A partir daí, o objetivo é compreender o risco cardiovascular global daquele indivíduo, e não interpretar isoladamente um único marcador laboratorial.
LDL, ApoB, pressão arterial, diabetes, tabagismo, composição corporal, nível de atividade física, função renal, histórico familiar e presença de doença aterosclerótica precisam ser analisados em conjunto.
Em situações selecionadas, exames de imagem, incluindo o escore de cálcio coronariano, também podem contribuir para refinar a estratificação de risco.
Quando existe Lp(a) elevada, pode ser necessária uma estratégia mais rigorosa para redução dos fatores modificáveis, especialmente do colesterol LDL, dependendo do risco individual.
É uma mudança importante de raciocínio:
não estamos tratando apenas um exame. Estamos tratando o risco cardiovascular daquela pessoa.
Estatina diminui a Lp(a)?
Esse é um ponto que costuma gerar confusão.
As estatinas são medicamentos fundamentais na prevenção cardiovascular quando corretamente indicadas, mas não são utilizadas especificamente para reduzir a Lp(a).
Seu papel nesse contexto está principalmente na capacidade de reduzir o LDL e, consequentemente, diminuir o risco cardiovascular global.
Portanto, uma pessoa com Lp(a) elevada pode ter indicação de uma estratégia mais intensa de redução do LDL, mesmo que a própria Lp(a) não seja significativamente reduzida.
Novamente, o objetivo não é perseguir apenas um número.
O objetivo é reduzir o risco total.
E os medicamentos específicos contra a Lp(a)?
Essa se tornou uma das áreas mais importantes de investigação na cardiologia preventiva nos últimos anos.
Diversas estratégias capazes de reduzir intensamente a Lp(a) vêm sendo estudadas, principalmente medicamentos que utilizam tecnologias capazes de interferir na produção da apolipoproteína(a).
E em setembro de 2026 surgiu uma informação científica especialmente importante.
O estudo de fase 3 Lp(a)HORIZON avaliou o pelacarsen, medicamento desenvolvido especificamente para reduzir a produção de apolipoproteína(a).
O estudo incluiu 8.323 pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida e Lp(a) elevada.
Os resultados preliminares divulgados mostraram que o medicamento conseguiu reduzir a concentração de Lp(a).
Entretanto, o estudo não atingiu seu desfecho primário de redução dos principais eventos cardiovasculares em comparação ao placebo.
Os resultados completos ainda precisam ser publicados e analisados detalhadamente para que possamos compreender melhor seus achados.
A história científica da Lp(a), portanto, ainda está sendo escrita.
Mas esse resultado já reforça uma das lições mais importantes da medicina baseada em evidências:
reduzir um marcador laboratorial não significa automaticamente reduzir infartos, AVCs ou mortalidade.
Na medicina preventiva, melhorar um exame é importante apenas quando isso se traduz em benefício real para o paciente.
O objetivo final nunca deve ser apenas produzir números melhores.
O objetivo é melhorar desfechos clínicos relevantes e preservar saúde ao longo do tempo.
Quem merece atenção especial para a Lp(a)?
Hoje já existe recomendação para considerar a dosagem de Lp(a) pelo menos uma vez ao longo da vida adulta.
Mas ela ganha relevância ainda maior em pessoas com histórico familiar de infarto ou AVC precoce, hipercolesterolemia familiar, doença cardiovascular aparentemente desproporcional aos fatores de risco tradicionais, eventos cardiovasculares apesar de LDL adequadamente controlado ou familiares de primeiro grau com Lp(a) elevada.
Como a concentração da Lp(a) possui forte componente hereditário, encontrar níveis significativamente elevados em um indivíduo também pode justificar a avaliação de familiares de primeiro grau.
Ou seja: às vezes, um exame realizado em uma pessoa pode revelar uma informação importante para toda uma família.
Um exame simples pode revelar uma informação para a vida inteira
Durante décadas, grande parte da prevenção cardiovascular esteve concentrada principalmente no colesterol total e no LDL.
Eles continuam fundamentais.
Mas hoje sabemos que o risco cardiovascular é muito mais complexo.
Duas pessoas com exatamente o mesmo LDL podem apresentar riscos bastante diferentes.
Genética, pressão arterial, metabolismo, diabetes, tabagismo, função renal, composição corporal, histórico familiar, ApoB, Lp(a) e presença de aterosclerose precisam ser interpretados dentro do contexto clínico de cada indivíduo.
A lipoproteína(a) representa muito bem essa mudança de paradigma.
A medicina preventiva não deve esperar uma doença aparecer para começar a agir.
Ela procura reconhecer os fatores de risco enquanto ainda existe oportunidade de modificar a trajetória futura da saúde.
E algumas das informações mais importantes sobre o futuro cardiovascular de uma pessoa podem estar presentes muitos anos antes do primeiro sintoma.
Prevenção é enxergar hoje aquilo que pode determinar o amanhã.
Não avaliar apenas doença.
Avaliar risco, reserva e o custo do tratamento ao longo da vida.
Dr. Gionei Sulzbacher
CRM-PR 29.795
Medicina Preventiva • Longevidade
Referências
Bajaj A, Ballantyne CM, Soffer DE, et al. A Focused Update to the 2019 NLA Scientific Statement on Use of Lipoprotein(a) in Clinical Practice. National Lipid Association / Journal of Clinical Lipidology. 2024.
European Society of Cardiology / European Atherosclerosis Society. 2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the Management of Dyslipidaemias. European Heart Journal. 2025.
National Lipid Association. Top Line Results from the Phase 3 Lp(a)HORIZON Trial. Setembro de 2026.
Novartis. Lp(a)HORIZON Phase III Topline Results for Pelacarsen in Patients with Elevated Lp(a) and Established Cardiovascular Disease. Setembro de 2026.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.

